terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

De volta às aulas

Depois de meio ano de abandono desse blog, decorrente da conjunção nefasta do excesso de trabalho com a falta de vontade (peguei nojo desse blog!), eis que o filho não tão pródigo retorna para escrivinhar um pouco mais sobre a saga do cotiadiano de uma escola pública que vai sobrevivendo aos tempos e aos mares.

Não prometo que terei tempo ou vontade de tornar esse blog movimentado, e também não preciso prometer porque meus leitores são poucos e já não acreditam mesmo em promessas de homens com mais de trinta. Mas, tentarei registrar aqui um pouco da loucura que é viver a realidade da escola pública (no caso, uma escola pública paulista), por mais um ano.

No ano anterior tentei focar os artigos desse blog no cotidiano da escola de uma forma geral, mas como isso abrange muita coisa, neste ano pretendo focar nichos específicos de temas recorrentes e relativamente relevantes: a começar pelos inevitáveis conflitos internos e externos que vivemos nas escolas e que são parte de um cotidiano que tem que ser adminstrado, apesar de todo o estresse gerado dentro de um sistema  apodrecido e condenado à falência múltipla, mas que reluta em sobreviver apesar de todos os governos e de todos os sabotadores públicos sustentados pela máquina educacional.

Começo o ano, portanto, com uma série (sei lá de quantos artigos) intitulada "Escola Pública - Território de conflitos". Obviamente minhas crônicas serão passionais, pois estou inserido nesse cotidiano e faço parte do exército de Dom Quixotes que ainda enfrenta moinhos de vento para encontrar sua doce Dulcinéia (se você é novo na vida e não sabe do que estou falando, vá ler O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes), mas, apesar da paixão própria e avassaladora que me move por esse terreno lamacento, tentarei também apresentar algumas análises minimamente coerentes dos fatos que serão narrados.

Espero que você goste e, quem sabe, daqui há alguns séculos, os arqueólogos digitais que escavarem esse blog não encontrem um bom material para que os sociólogos babacas de então, assim como os de hoje, possam se masturbar mentalmente.



terça-feira, 20 de julho de 2010

Medíocres, mas bem colocados

O MEC divulgou nessa útima segunda-feira, 19/07, a lista das notas médias do ENEM por escola de todo o país. A mídia já correu buscar os nomes das melhores e piores escolas e analistas diversos vão dando suas opiniões. Então eu também vou dar a minha, mas não apenas sobre o ranking em geral, e sim sobre a posição da nossa escola nesse ranking e do próprio ranking em relação às expectativas que temos e que deveríamos ter sobre a educação que oferecemos nas nossas escolas.

O título desse artigo esclarece bem minha opinião: somos medíocres, mas bem colocados. E por mais absurdo que pareça, é verdade.

O gráfico abaixo mostra a situação da nossa escola (Neuza) comparativamente às demais escolas estaduais:


Como se pode ver por esse gráfico, nossa escola teve nota 5,6 em uma escala de 0 a 10, mas a melhor escola estadual do Brasil teve nota de apenas 7,2; a melhor do estado teve 6,8 e a melhor da nossa cidade teve 5,8.

Também podemos fazer outras comparações com as demais escolas estaduais:
  • estamos entre os 8,3% melhores classificados no país;
  • entre os 9,8% melhores classificados do estado e;
  • somos a 4ª melhor colocada da cidade.
Nossa diferença percentual para a melhor colocada do país é de apenas 16,1%, em relação à melhor colocada do estado a diferença cai para 11,8% e em relação à melhor colocada da cidade a diferença é de apenas 2,2%.

Olhando com esses olhos poderíamos dizer que estamos realmente bem colocados, mas sejamos sinceros, somo apenas medíocres! E não estou falando apenas de nossa escola, é claro, mas sim de todas as escolas públicas e privadas do país.

Vale também lembrar que as escolas particulares, embora em média estejam melhor classificadas do que as escolas estaduais, ainda assim têm um desempenho também bastante medíocre. A melhor escola particular do país tem um desempenho apenas 2,7% superior à melhor escola estadual e, na outra ponta, a pior escola particular do país tem um desempenho apenas 20% superior ao da pior escola estadual (que, à propósito, é uma escola indígena do Amazonas e tem uma nota altamente discrepante da penúltima classificada - em relação à penúltima classificada a diferença percentual cai para 8% apenas).

Resumindo, temos uma escola ruim em todos os níveis, em todos os estados e indiferentemente da escola ser pública ou privada.

Ser medíocre e estar bem colocado não deveria nos dar nenhuma alegria. Alegres seríamos se tívémos uma nota, pelo menos, superior a 8,0. Então poderíamos, com alegria e méritos, comemorar algo. E não seria uma comemoração por estarmos aqui ou alí em um ranking comparativo, mas sim uma comemoração por estarmos situados em um patamar onde se poderia dizer que nossa escola, de fato, ensina alguma coisa.

domingo, 18 de julho de 2010

Analisando o primeiro semestre de 2010

Início do recesso e hora de limpar gavetas, arrumar a bagunça e replanejar o segundo semestre. Hora também de analisar o primeiro semestre com olhos para o replanejamento das ações para o restante do ano.

Esse ano foi, até agora, bem complicado. Iniciamos o ano mais tarde porque a SEE-SP não tem demonstrado muita competência em cumprir seus compromissos. Enfrentamos uma greve muito mal esclarecida movida por um sindicato que já não nos representa como categoria há um bom tempo. Tivemos festas locais e Copa do Mundo. Enfim, parece que foi outro semestre "normal".

Estamos sem nossa Sala de Informática desde o final do ano passado por absoluta incompetência da FDE e descaso generalizado da nossa DE local (Americana) e da SEE-SP. Uma reforma de uma semana já está durando mais de 30 semanas! Depois ainda tem gente que tem a cara de pau de falar em meritocracia, competência e compromisso com a educação.

Com relação ao rendimento dos alunos ao longo dos dois primeiros bimestres, verifiquei que houve melhoras e isso indica que as medidas tomadas entre o primeiro e o segundo bimestre surtiram alguns efeitos positivos. Evidentemente ainda estamos muito longe da situação que poderíamos considerar "aceitável", mas continuamos na luta. Os gráficos abaixo mostram as principais estatísticas das classes comparadas nos dois primeiros bimestres de 2010 (clique nas imagens para vê-las ampliadas).


Uma análise mais detalhada pode ser obtida na Biblioteca Digital do meu site, bem como as ações implementadas entre o primeiro e o segundo bimestres e as que implementarei no segundo semestre. Infelizmente não sei se poderei contar com a Sala de Informática no segundo semestre (ou algum dia qualquer), mas temos que nos replanejar e tomar decisões nesse contexto de incertezas todo ano, então isso não é novidade.

Uma novidade mesmo tem sido o "interesse forçado" da DE em acompanhar as ações da escola em vista dos resultados do Idesp. Ainda que as ações sejam muito mais burocráticas e tomadas no sentido de se criar uma espécie de "blindagem da DE" (que nunca gostou de se envolver com a escola diretamente - acho que são alérgicos à escolas) começamos a ver que já nasce, ainda insipiente e forçado, um movimento de aproximação com a realidade das escolas. Muito bom! Nada como uma aguinha batendo nas parts baixas, não?

À propósito de novidades, se você for meu aluno experimente assinar o boletim de notícias "Cantinho News" (disponível na página de entrada do site) e passe a receber semanalmente dicas legais e comentários sobre as questões do ENEM.Nesta semana: dicas de sites para teens e uma questão sobre energia, rendimento e resistência elétrica.

domingo, 4 de julho de 2010

O aluno-bomba EXPLODIU!

Todo ano (ou quase) tem algum imbecil para estourar bombas na escola no mês de junho. O banheiro é sempre o local preferido. Talvez pela acústica favorável, talvez pelo acesso fácil ou talvez porque é lá, na privada, que devem estar as idéias desses alunos-bomba. Esse ano não foi diferente... ou melhor, foi sim!

Eu estava começando minha aula no terceiro colegial noturno, em plena quinta-feira, quando fomos todos sacudidos por um enorme estrondo. Seguiu-se, após o susto, a algazarra costumeira. Na verdade nem dei bola, pois a bomba estourou em algum lugar distante da minha sala e historicamente quando se ouve o barulho é porque o engraçadinho-bomba já deve estar bem longe. Ou, deveria estar bem longe...

Dessa vez o infeliz fez uma aposta perigosa demais para o contexto em que minha escola se encontra: ele acreditou que poderia fazer isso diante de vários outros alunos e que todos o acobertariam. Ledo engano! Pouco à pouco estamos conseguindo criar um "sentimento de pertencimento" entre nossos alunos e, apesar de todos os clamores da adolescência, alguns já se sentem donos da escola, exatamente como gostaríamos que todos se sentissem.

Assim, diante de um ato estúpido e perigoso, alguns alunos fizeram a coisa mais inteligente a fazer: apontaram o idiota para a direção e depois de um teatrinho infantil de rotina, com direito à presença dos pais para atestarem o quão bonzinho era o pequenino, eis que ele acabou admitindo o ato. Agora temos um imbecil a menos na escola e já podemos ir ao banheiro mais seguros.

É... As coisas mudam devagar, mas mudam sempre.

sábado, 12 de junho de 2010

Festa do Peão, Copa do Mundo e Escola

A 25ª Festa do Peão de Boiadeiro de Americana se encerra agora em 13/06. A Copa do Mundo começou em 10/06. Motivos para cabular aulas para quem já cabula aulas mesmo sem motivo, agora não faltarão. :)

É claro que faltar às aulas por uma boa razão é compreensível e o sistema educacional público é bem tolerante com relação às falatas. Um aluno tem o direito de faltar dois meses inteiros da escola sem que isso comprometa sua aprovação com relação à frequência. Mas é claro que faltar dois meses da escola compromete imensamente a aprendizagem.

Agora que estamos no meio do segundo bimestre já vemos que alguns alunos já quase faltaram os dois meses inteiros que podem faltar ao  longo do ano e, nesses casos, já sabemos que teremos muitos problemas pela frente.

Os casos mais interessantes são daqueles alunos que vêem à escola e então combinam, ainda no portão, ou já dentro da escola, para irem embora ao invés de assistir às aulas. A tese defendida por eles é sempre a mesma: "Não dá nada não, e se der é pouca coisa".

Desde o dia 02/06, quando começou a festa do Peão de Boiadeiro de Americana, já tivemos pelo menos três dias em que muitas classes estiveram completamente vazias no período da noite. Não, não foi por falta de professores, que ficaram na escola cumprindo os seus horários até às 23:00, mas porque os alunos decidiram por conta própria que não assistiriam aulas nesses dias. Também não foram à festa. Simplesmente voltaram para casa ou ficaram pelas ruas batendo papo.

É evidente que há algo muito errado nisso tudo. Porque eles dão tão pouca importância à sua própria formação que, mesmo que ocorresse com a frequência plena deles, ainda assim seria bastante precária?

Na última reunião de HTPC recebemos um "questionário" vindo da DE onde deveríamos propor, entre outras coisas, três medidas de curto prazo (para esse ano ainda), três de médio prazo (para o ano que vem) e mais três de longo prazo (para os próximos anos), visando melhorar o "fluxo" de alunos nas séries do Ensino Médio. É mais ou menos como se a DE nos pedisse para encontrar soluções para problemas que só vem se agravando nas últimas duas décadas, apesar de todo o discurso do governo sobre a boa qualidade da educação paulista e, apesar de tantos "especialistas da SEE" não terem conseguido chegar a nenhuma proposta de solução viável para o problema. Parece que agora esperam que a escola resolva os problemas que eles criaram no conforto de suas poltronas enquanto nós, professores, comíamos pó de giz, e o pão que o Serra amassou, nas salas de aula entupidas de alunos semi-analfabetos e gritávamos aos quatro ventos que a escola estava sendo abandonado e sucateada em todos os sentidos.

Mas como melhorar o fluxo dos alunos nas séries do Ensino Médio se eles não dão a menor importância para a escola e se o próprio sistema já criou e solidificou uma cultura em que a escola não tem mesmo nenhuma importância? Como convencer esse aluno a vir à escola e estudar se ele já sabe que vindo ou não vindo, estudando ou não estudando, o sistema vai querer empurrá-lo para fora, da mesma forma, para "melhorar o fluxo"? Porque esse aluno deveria se importar com a educação oferecida a ele por uma escola que não liga a mínima para ele e tenta agora, desesperadamente, criar soluções mágicas e indecentes para falsear ainda mais as estatísticas sobre a aprendizagem e a qualidade do ensino?

Bom, depois da Copa do Mundo vêm as férias (que os alunos decretarão no final de junho, apesar de oficialmente só começarem no meio de julho) e os alunos só aparecerão mesmo na escola em agosto. Daí teremos mais alguns feriados, eleições e sabe-se lá o que mais. Quem sabe em 2011 haverá alguma escola...